poema a mãezinha ( numero um )


postado em por mallu


Mãezinha minha,
porque me fez assim,
passarinho?

Porque não leão,
que sempre quis ser,

ou qualquer outro

de rugido alto,
corpo forte,
rei da floresta,
ou de qualquer lugar…

Mas,

Já que me fez,
inevitavelmente, voadora,

porque não gaveão, mamãe?

Ou qualquer outro de bico duro,
de olhos rígidos,

dono do vôo,

ou do caminhar?

.

É,

não me fez urubu, mãezinha,

olha, eu nem sei ser bicho áspero.

E

não me fez Bem-te-vi,
olha, eu nem sei ser bicho despótico.

Mas

Fez-me, quando pequeninha, Uirapuru,
olha, eu bem sei ter voz de flauta doce.

.

Pois é, mamãe,
você criou uma espécie macia,
que canta como pode,
que vive onde dá,
que voa com vontade,
que tem as patinhas do pai,
que não larga do outro ovo que nasceu dois anos antes,
que foge do escuro,
que está extinto e único,
que enxerga meio mal com os olinhos
mas mais que bem com o coração.

.

Pois é,

mamãe,
você criou um novo tipo de bichinho,
cuidou,
e chamou de Maria Luiza.



adultar


postado em por mallu


costumava eu,

sentir claro e frequente,

pequenos saltos de existência,

hora criança,

hora adulto.

.

faz tempo que não pulo.

.

será que adultei de vez?

.

ou será que minha existência é uma fusão de tais,

e agora só me resta pular,

no mesmo pé,

no mesmo ponto,

pra cima, apenas,

pular pro céu?



Girassóis


postado em por mallu


Ha tempos sonhava, ela, com o dia que (quase) todas, elas, sonham. Já planejara o vestido branco e escolhera as rendinhas, a flor no cabelo, as fitas e as luzinhas. Mas ha mais tempos ainda, sonhara com tal dia avivado em girassóis.

Acontece que tinha, ela, ouvidos e, portanto, medos. Não dela, não nascidos nela, mas que s’engavetavam e sombreavam-lhe o peito, vindo da boca dos outros. Veio, um desses dias, nesta, a aflitiva idéia de que o dito dia depositava ao casal um peso que lhes machuca e lhes arrisca a vida leve e eterna d’amores.

Tendo como mais valiosa essa sua paixão que, inclusive, já lhe preenchera bons 4 anos, decidiu deixar dissolver ao vento a vontade do casório e viver o junto, e pronto.

Mas não, não morreu nela, nas próximas dezenas de anos as rendas, a flor de cabelo, as fitas, as luzinhas e, muito menos, os girassóis. Mas foi ela assassina do peso de não tê-lo feito. Matou devagarinho, bem devagarinho, o arrependimento de não ter vivido “o” dia.

Matou-o todos as manhãs, com os carinhos na pele daquele que disse sim.

Matou-o todas as tardes com as fitas que amarrou pela casa.

Matou-o todas as noites, com as luzinhas que pendurou nas paredes.

Matou-o todas as madrugadas, com os beijos de sim que dava na boca do homem qu’ela jurou e quis cuidar.

Matou-o toda semana, quando comprava, no fim da descida, depois do canal, quase na praia, uns girassóis que cultivava com água e sonhos realizados.

Viveu, ela, todos os dias, o dia, com vários homens, num só. Escolhia-o, casavam, embaraçavam as coisas, escolhia-o de novo e casavam. Quantas vezes quisessem, quantos lados quisessem um d’outro.