o choro e o olho da baleia


postado em por mallu


Minha irmã não me manda mensagens com a frequência que eu gostaria mas, quando ela dá a graça da presença ou lembrança, me delicio em sentir o imenso e supremo amor que sinto por ela.

Eu estava sob a trilha de Caetano Veloso, espantada ( mais uma vez ) com a beleza de “Força Estranha” na voz da Gal e tantas outras transcendentais composições desse nosso privilégio de artista.

O barulhinho do telemóvel ( aplicando aqui meus atuais hábitos lisboetas), avisava que Ana dizia alguma coisa: ” mallu!! viu a matéria que saiu no Globo? o lang (um amigo) comprou um jornal e deixou na casa da vovó, ela guardou, se você quiser”.

Extatos três minutos depois eu pergutei ” Não, o que? “, mas a Ana já sumiu de novo. Ela trabalha muito e estuda muito. Além disso ela também namora e tem hobbies ( eu queria ser um hobbie dela).

Carências à parte, o caso é que, de férias, eu estava na frente da internet só aproveitando aquela trilha do Caetano e procurei por meu nome no site do jornal carioca.

Arrepiei quando me vi escrito num texto dele, o próprio, esguelândo-se ao meu ouvido e, sem que ele nem notasse ou pretendesse, dominava meu ouvido, minha cabeça, olhos e consciência, e foi ele que soltou minha coluna feito desmaio, e minha cabeça caiu sobre a mesa de madeira.

Chorei por uns sei lá quantos tempos, até conseguir ligar pro Marcelo e dividir meus soluços.

Mas, por enquanto, basta que eu me concentre um minuto no trabalho que Mallu Magalhães fez com “Elegia”. O sumiço do bordão no trecho exato da música, os esconderijos que a voz busca (por timidez, por adivinhação erótica, por consciência das sutilezas da expressão artística), tudo nessa faixa faz pensar na riqueza que está aí no ar, na força que antes desse disco era tão mais difícil de ver. Que, para isso, Mallu tenha ido para o extremo oposto do projeto de clareza complicada que é a tradução de Augusto de Campos para o poema de John Donne, só reforça a sensação de que Mallu chegou longe. E com isso, provou o que se percebe em cada faixa desse disco: que essas meninas não são de brincadeira. Só mesmo a música de Péricles para aglutinar esse elenco de criadoras generosas (não se sente o ranço de ego feminino que fácil surge entre possíveis divas). Péricles, o eterno adolescente que, vezes sem conta, tem salvado o legado dos anos 1960.LER COLUNA INTEIRA

Não há muito tempo, inclusive, registrei meus sentimentos sobre esse jóia de álbum do Péricles.

(mas não contei sobre o processo)

Acho que todos sabem que os esquemas da música tem se reformulado e, pessoalmente, não gosto de choramingar, porque acho que perco tempo, pela falta de dinheiro grande ou estrutura. Afinal, ainda sou um girino nessa carreia e vou que vou como dá.

Desta vez, quase entrei em pânico com o desafio que eu mesma mergulhei e talvez me afogaria.

Com minha velha mania de achar que tudo é possível, preferi pegar o dinheiro da produção daquela faixa para comprar um equipamento decisivo para a realização do meu desejo de ter um estúdio.

Sempre quis nem ver o tempo,  ficar doente pela música, pelo som, por essa coisa misteriosa e seus milhões de mini-problemas e desafios que se tem no processo de gravação sonora.

Lá vim eu de Nova Iorque com o tal do equipamento e tratei de preparar uma cabana no blindex do chuveiro com travesseiros e tudo que achei em casa que absorveria o som.

Experimentei também o armário que fazemos de dispensa, tentei armar araras de roupas a minha volta, exprerimentei “ah” e “ó” nas quinas da casa toda mas, por fim, encontrei a grande utilidade para meu carro que, coitado, quase não anda e serve de casa para formigas, aranhas, joaninhas e outros milhares de pequenos seres vivos da baixada de Jacarepaguá.

Era alí o melhor som, não tinha jeito. Foi difícil fazer aquele gigante motorizado chegar com a bunda perto da porta, da frente, invadindo a varanda, para que eu pudesse puxar uma tomada e da sala me enfiar lá dentro com os equipamentos de gravação.

Virei todas as minhas víceras pro assunto e comecei leituras, cursos online, por livros, vídeos, como desse, de áudio, gravação, microfones…

Me vi sem fome, sem sede, sem sono, apesar do cansaço das viagens daqueles dias.

Estava mesmo quente e eu suava demais. Além de calor, eu tinha muito medo daquilo não dar certo e eu entregar feia uma música que eu amo tanto e que foi gravada tão maravilhosa pelo Caetano Veloso.

Sem mais choro, vela ou tempo, enviei, lá pelas 4;30 da manhã, minha versão para o Zé Pedro e Nina Cavalcanti. Dormi um pouquinho alí em cima do HD externo que maquinava minha estripulia mas depois dispertei para esperar o que eles diziam.

E foi essa meu primeiro sono de esgotamento extremo por engenharia de som.

O projeto inaugurou meu estúdio móvel-imaginário-guerrilheiro-absurdo.

Olho de Baleia estúdios.

Olho de Baleia era o nome da minha lojinha quando eu era (muito) criança. Sempre gostei de trabalhar e me empenhava em artesanatos ( e ai de quem criticasse o acabamento dos meus produtos!), shows, jantares, massagens, lavagens de carro, revenda de presentes que havia ganhado, pintura de unhas, qualquer coisa que eu conseguisse algumas moedas dos meus pais e avós.

A minha irmã, por ser mais velha e lúcida, poucas vezes quis ser minha sócia.

Acho que ela vai achar bonitinho quando ler esse texto e lembrar dessas coisas. Vou mandar pra ela… Mas, como estava dizendo, minha irmã  trabalha muito e estuda muito. Além disso ela também namora e tem hobbies ( eu queria ser um hobbie dela)…

 

 

 

 

 



Fernando Pessoa


postado em por mallu


 

Percebi, recentemente,  que Fernando Pessoa tem feito ciranda em mim. Comemoro a sincronicidade do mundo e lhe dou muita bola.
Nossa viagem marcada à Lisboa, e me vem a jornalista Luisa introduzir a entrevista com um poema do Fernando Pessoa.
Nunca havia procurado por ele. Cheguei agora e assumidamente procuro a melhor janelinha pra me sentar.
(imperdível entrevista com o filho do barbeiro, aos 5 minutos aprox…)

Luisa, a jornalista, me arrepiou em plenas dez da manhã:

“O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…
Creio no mundo como num malmequer,

Porque o vejo.
Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…
O Mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos..

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

Mas porque a amo, e amo-a por isso

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe por que ama, nem o que é amar…
Amar é a eterna inocência,

E a única inocência não pensar…”
Alberto Caeiro, em “O Guardador de Rebanhos”, 8-3-1914

Toda minha existência acalmou e senti o mundo silenciar. Raramente fico tão atenta a ponto de me sentir em pleno silêncio, ouvindo, apenas, aquela desconhecida tão entregue no gesto de iniciar um contato assim, um contato sem qualquer ambição ou pré-amizade, pondo-se tão a mostra, na voz, na crença. Ela abriu a mim, claramente, seu coração naquele gesto de ler poesia.  Ela abriu e eu ouvir.

Agradeci a ela.

Perguntei a ela de quem era aquilo e ela contou. Disse ela que meu jeito de escrever no blog, meu jeito de ser a remetiam Fernando Pessoa.
Sinto que passei tantos anos condenando e matando ( matando, mesmo ) meus gestos e manias, meus pensamentos exêntricos, minha fé no impossível, minha cabeça, meu mundo paralelo.
E de uns tempos pra cá, tenho disfrutado desses presentes do tempo: quando tomo conhecimento de que algum celebrado ser-humano também pratica (praticava) alguma mesma esquisitice que eu.

Por isso, hoje aceito e acredito na minha mania antiga de dar nome a tudo e criar tantas facetas de mim que virava mesmo uma mentirosa, numa mania por maravilhoso. No fundo… o que nesse mundo não é mentira? impressão? irreal? incerto? inexplicável? esquecível ?

Inclusive, eu já ia esquecendo desse texto ( guardado no computador) e da existência do twitter ( afogado na internet). Sei lá eu porque raios entrei no twitter e, para minha surpresa, escrevi um tweet de um pensamento, tipo pagando de frase clássica….

E, claro, pula na tela um tweet da revista  Super Interessante:

É verdade que Fernando Pessoa…?

Verdades e mitos sobre o escritor português
por Simone Cunha e Vitor Sorano, de Lisboa (Portugal)

…Fez slogan para a Coca-cola?
“Primeiro, estranha-se, depois entranha-se.” O slogan foi bolado pelo poeta entre 1927 e 1928, e deveria marcar a entrada do refrigerante em Portugal. Mas, segundo biografias de Pessoa, o regime fascista e paranoico de António Salazar viu na frase evidência da ligação da bebida com a cocaína. Na versão mais efervescente da história, o estoque do refrigerante que já estava em Lisboa foi apreendido e jogado no mar. O fato é que a Coca-Cola só entrou em Portugal em 1977, 9 anos após a morte do ditador e 3 após o fim da ditadura.


…Criou uma lista telefônica universal?
Em 1925, Pessoa patenteou uma lista telefônica mundial que usaria apenas figuras. Um dentista brasileiro teria nossa bandeira e um dente, por exemplo. É, outro projeto que não deu certo. 


…Escreveu um guia turístico?
Lisbon, What a Turist Should See foi escrito (e não publicado) em inglês – mais um plano frustrado. Como os originais só foram descobertos 60 anos depois, os editores dão um conselho bem lusitano: “Contate as atrações citadas a fim de certificar-se de que ainda existem”.


…Armou um desaparecimento?
Em 1930, o ocultista britânico Aleister Crowley já trocava cartas com o poeta havia um ano e se convidou para um tour guiado por Portugal. Trouxe junto uma jovem amante, brigou feio com ela e sumiu do mapa. Sequestro? Assassinato? Suicídio? Pessoa tentou emplacar um livro sobre o desaparecimento do então mago mais pop do mundo – queria 200 libras adiantadas de quem topasse. O fato de que era tudo uma mentira bolada por ele e Crowley deve ter contribuído para o fracasso de mais esse projeto.”
 

E eu, comemoro a sincronicidade.

- Viva a diversidade !
(vivaaaa)
- viva o marginal e viva o quadradinho !



HOJE: mallu para 2nd floor


postado em por mallu


MALLU para ELLUS 2nd FLOOR

São Paulo, algum dia do começo do ano de 2012.

Entramos, eu e Rossatto, meu empresário, num edifício moderno e grande.
Poucas vezes estive numa sala de reunião, mas quando estou, torno o fato intenso e sério dentro (e, provavelmente fora) de mim.

Sempre visitei o segundo andar da Ellus na Oscar Freire, para ver as autênticas, fortes e artísticas roupas de lá. Parecia mesmo um refúgio em meio das outras informações e universos das marcas de propostas mais definidas e previsíveis ao meu redor. A 2nd floor, para mim, era o filé máximo de estilo nos jovens inteligentes que eu admirava e almejava um dia ser, quando eu passasse um tanto daqueles meus 13, 14 anos.

Muito tempo passou e me apareceu o contato da marca. Me senti tão chique, adulta e genial que reservei um caderno caro e de qualidade só para o projeto.

Ao escutar a proposta de “fazer uma coleção com meus desenhos” ao telefone, pude ouvir o barulho das máquinas de costura da fábrica, e me vi enfurnada naquele lugar, com óculos redondos , calça alta e uma fita métrica no pescoço, dando e recebendo ordens, numa movimentada maquinaria que eu criei em questão de segundos na minha cabeça.

Feito imaginação de personagem de quadrinhos, fiz daquele convite uma enorme aventura onde eu era a agente secreta, a genia das grandes idéias, o mito vivo e marginal.
Animada (percebe-se), me deparei com um sistema já construído e novos contatos de email cuja linguagem e ritmo eu desconhecia.

 

Eu já havia trabalhado com campanhas, fotos, shows nos desfiles e tudo mais.
Mas eu nunca havia me sentido parte de uma equipe, de uma empresa, da qual, ainda por cima, eu gostava tanto.

Quis vestir roupas de escritório, passar a camisa e trabalhar tradicional e pontualmente, entregue àquilo tudo.

Me vi convidada.

Exageros meus, sempre foram assim. Quando criança, brincava de nave espacial em caixa de papelão, e hoje me pintava a mais inteligente personagem da atualidade quando, cabia a mim, apenas, contribuir com a entrega de alguns desenhos.

Esperanças à parte, acompanhei, um tanto de longe, a um ballet maluco de prazos, espectativas e grandes feitos.

Tive receio.

Tudo que eu soube, ao pedir qualquer diretriz , era que a coleção teria algo a ver com “cowboys”, “velho oeste”, porém numa leitura tropical.

Tive medo.

Foi mesmo difícil entrar em sintonias e ferver como minhas, as idéia que não vi nascer.
A proposta era clara: cantar no desfile da coleção, fotografar o catálogo e contribuir com alguns desenhos para estampas de camisetas.

Aos meus órgãos perceptores, acreditei ter recebido a importantíssima e desafiadora missão de desenvolver estampas que se comportassem como tais, funcionassem enquanto pitadas, cabíveis em camisetas, acessíveis ao consumidor, mas que fossem, a cima de tudo, minhas.

Resultantes que fossem autênticas, transformadoras, intrigantes, inéditas e, ante de tudo, habitassem o tal universo “cowboy, tropical” e “indio americano”.

Cheguei a comprar no mercado livre vários tipos de bonequinhos do Forte Apache, e livros sobre anatomia dos grandes mamíferos dos Estados Unidos, para que eu pudesse encontrar naqueles assuntos elementos com os quais sentisse alguma identificação, algum amor e desejo.

Dessa pesquisa norte-americana, fiquei com o búfalo e seus maravilhosos mistérios e hábitos, junto aos cactus e com as águias americanas. Para mim, aquilo fora o diamente, o melhor da polpa, o que mais representava essa primeira parte da pesquisa.

No tropicalismo, por sua vez, me foi mais difícil escolher apenas poucos elementos, pois já havia os personagens norte-americanos a serem combinados e complementados. Acabei com a arara, com a praia e, claro, o coqueiro (meu grande amor).

Viajei na concepção de estampa, nos métodos, nas possibilidades de beleza. Caí de amores pelos padrões,cores e bordados tradicionais dos índios daquela região ao nosso norte.

Foi assim que aprendi muito sobre esses animais, sua mínimas características, os seus imensos e grandiosos detalhes. Aprendi, também, sobre o energético mecanismo da moda (que sempre me despertou encanto) e, mais ainda, aprendi sobre mim, essa sonhadora pela qual ganho simpatia e afeto.

Aprimorei a arte do auto incentivo, com o amor que aprendi a dar com quem me ama.

Polidas, acabadas, impressas nos tecidos, resultamos nas camisetas que foram vendidas recentemente. Não sei quantas venderam.

 

Hoje será a última promoção desse trabalho, um pocket show na loja da 2nd Floor em Belo Horizonte, um dia antes de um dos últimos shows do Pitanga esse ano.
Já sinto desejo de me renovar. Já sinto vontade de não ter nada e me vestir de jeans e camiseta branca, sentar numa mesa branca, de cadeira branca, lisa, o chão tanto faz, de paredes brancas e teto branco. E ficar lá, esperando meu próximo chilique, fogo ou delírio criativo.